“Ne marche pas devant moi, je ne suivrai peut-être pas. Ne marche pas derrière moi, je ne te guiderai peut-être pas. Marche juste à côté de moi et sois mon ami.”
sábado, 19 de maio de 2012
O Trilho da cangosta do Estêvão e Casa Museu Camilo
Ontem de tarde, escoltados por uns pinguinhos de chuva aqui e ali, percorremos (alunos do 10º ano de escolaridade e respetivas professoras de Português, da Escola Secundária de Tomaz Pelayo) o Trilho da "cangosta do Estêvão", entre o Mosteiro de Landim e a Casa Museu de Camilo, em Seide S. Miguel – Vila Nova de Famalicão.
Foi uma caminhada literária através de páginas do "Cego de Landim", da "Brasileira de Prazins" e da "Maria Moisés", com interpretações do professor António Sousa, do Sr. Reinaldo Ferreira e de alguns alunos, dando vida às personagens da ficção camiliana e proporcionando belos momentos de muito humor, tendo culminado na visita guiada à Casa Museu.
Foi uma caminhada literária através de páginas do "Cego de Landim", da "Brasileira de Prazins" e da "Maria Moisés", com interpretações do professor António Sousa, do Sr. Reinaldo Ferreira e de alguns alunos, dando vida às personagens da ficção camiliana e proporcionando belos momentos de muito humor, tendo culminado na visita guiada à Casa Museu.
terça-feira, 8 de maio de 2012
O poeta do mês
LUANDINO VIEIRA
Escritor de origem portuguesa, José Luandino Vieira, pseudónimo literário de José Mateus Vieira da Graça, nasceu a 4 de maio de 1935, na Lagoa do Furadouro, em Ourém. Tornou-se, porém, cidadão angolano, tendo participado ativamente no movimento de libertação nacional e contribuído para o nascimento da República Popular de Angola.
Aos três anos de idade viajou para Angola, juntamente com os seus pais, e passou toda a infância e juventude em Luanda, onde fez o ensino secundário. Exerceu diversas profissões até ser preso em 1959, sendo depois libertado. Posteriormente, em 1961, foi de novo preso e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Transferido, em 1964, para o campo de concentração do Tarrafal, onde passou oito anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra, escrita, na grande maioria, nas diversas prisões por onde passou.
Depois da independência angolana, foi nomeado para diversos cargos: organizou e dirigiu a Televisão Popular de Angola de 1975 a 1978; dirigiu o Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA até 1979; organizou e dirigiu o Instituto Angolano de Cinema de 1979 a 1984.
No domínio da literatura, foi um dos fundadores da União de Escritores Angolanos, em 1975, sendo seu secretário-geral desde então até finais de 1980. Foi também secretário-geral adjunto da Associação dos Escritores Afro-asiáticos, de 1979 a 1984, tornando-se depois secretário-geral da mesma até dezembro de 1989.
Pertenceu à geração angolana da "Cultura" entre 1957 e 1963. A sua escrita é original, usa o falar crioulo e subversivo da linguagem para dar um retrato mais realista às suas personagens, enriquecendo-as e conferindo-lhes a expressão viva e colorida das gentes o dos lugares pobres que retrata.
Do seu trabalho destacam-se as seguintes obras: A Cidade e a Infância (1957); A Vida Verdadeira de Domingos Xavier (1961, traduzido para várias línguas, constituindo também a base do filme Sambizanga, realizado por Sarah Maldoror); Luuanda (1963, traduzido também para várias línguas, recebeu o Prémio Literário angolano "Mota Veiga" em 1964 e o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1965, o que causou violenta reação da parte do Estado Novo); Vidas Novas (narrativas escritas em 1968 no Pavilhão Prisional da PIDE em Luanda, e apresentadas ao concurso literário da Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, tendo sido distinguidas com o Prémio "João Dias" por um júri de que faziam parte, entre outros, Urbano Tavares Rodrigues, Orlando da Costa, Lília da Fonseca, Noémia de Sousa e Carlos Ervedosa); Velhas Estórias (1974), João Vêncio: Os Seus Amores (1979), Kapapa: Pássaros e Peixes (1998), Nosso Musseque (2003) e Velhas Estórias (escrito em 1974, e reeditado em 2006).
Em 2006, foi galardoado com o mais importante prémio português de literatura, o Prémio Camões, que recusou por razões pessoais.
Luandino Vieira. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2012.
Canção para Luanda
A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
- Luanda onde está?
Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos
- Xé
mana Rosa peixeira
responde?
-Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!
"Olá almoço, olá almoçoeee
matona calapau
ji ferrera ji ferrereee"
- E você
mana Maria quintandeira
vendendo maboques
os seios-maboque
gritando, saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
"maboque, m'boquinha boa
doce docinha"
- Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!
Zefa mulata
o corpo vendido
baton nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo o seu corpo
- seu corpo cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
- Luanda onde está?
Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
- precisa comer!
- Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casa antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
tractor derrubou?
Meninos das ruas
cacambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?
- Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
- Luanda onde está?
Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
- os panos pintados
garridos, caidos
mostraram o coração:
- Luanda está aqui!
(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa)
Estrada
Luanda Dondo vão,
cento e tal quilômetros
mangas e cajus
marcos brancos
meninos nus
Branco algodão
crescendo
corpos negros
na cacimba
O Lucala corre
confiante
indiferente à ponte que ignora
Verdes matas
Sangram vermelhas acácias
imbondeiros festejam
o minuto da flor anual
Na estrada
o rebanho alinha
pelo verde
verde capim
Adivinhados
caqui lacraus
de capacete giz
trazem a morte
Meninos
se embalam
em mães velhas
de varizes:
Rios azuis
da longa estrada
E é fevereiro
sardões as sol
Cassoalala
Eia Mucoso
tão cheio agora
Adivinhados
permanecem
lacraus caqui
capacetes giz
Não param as colheitas
Que razão seriam
fevereiro
acácias sangrando vermelho
verdes sisais
cantando o parto
da única flor?
Não param as colheitas!
(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de
O poeta do mês de abril
ANTERO DE QUENTAL
18 de abril de 1842 - 11 de setembro de 1891
Antero de Quental é entre nós o grande criador de uma poesia filosófica romântica, influenciada pelos modelos alemães. Nasce em Ponta Delgada, no seio de uma família nobre e com tradições literárias da ilha de S. Miguel. Em 1852, vai para Lisboa estudar no Colégio do Pórtico, fundado por António Feliciano de Castilho, com quem já aprendera francês e latim em Ponta Delgada, entre 1847 e 1850. Um ano depois regressa a S. Miguel, de onde partirá em 1855 para Coimbra, a fim de fazer os estudos preparatórios para o ingresso na Universidade. Aos dezasseis anos, inicia o curso de Direito. Durante a sua permanência em Coimbra, assume-se como uma figura influente no meio estudantil coimbrão, tomando parte em várias manifestações académicas. É por esta altura que contacta com os novos autores e correntes europeias - o socialismo utópico de Proudhon, o positivismo de Comte, o hegelianismo, o darwinismo, as doutrinas de Taine, Michelet, Renan, o romantismo social de Hugo - e, segundo confessará mais tarde, perde a fé. Em 1861, publica em edição limitada os Sonetos de Antero, obra dedicada ao poeta João de Deus, e, dois anos depois, os poemas Beatrice e Fiat Lux. Em 1865, publica as Odes Modernas, poesias de romantismo social, acompanhadas de uma "Nota sobre a Missão Revolucionária da Poesia". Em resposta à reação crítica de Castilho na carta-posfácio ao Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, publica os opúsculos Bom Senso e Bom Gosto e A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, que desencadearam a Questão Coimbrã. Ainda no contexto da Questão Coimbrã, bate-se em duelo com Ramalho Ortigão, de quem viria a tornar-se amigo. Decide aprender o ofício de tipógrafo, primeiro em Lisboa e depois em Paris, onde conhece Michelet e lhe oferece um exemplar das Odes Modernas. Regressado a Lisboa em 1868, e depois de uma curta viagem à América do Norte, reúne-se com os seus antigos condiscípulos de Coimbra no "Cenáculo", grupo onde se discutem as doutrinas recentes e se descobrem os novos poetas (Baudelaire, Gautier, Nerval, Leconte de Lisle e o redescoberto Heine); fruto destes encontros, criação coletiva da Geração de 70, nasce o poeta satânico e dândi Carlos Fradique Mendes. Em 1871, organiza as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, proferindo as duas primeiras, O Espírito das Conferências e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. No rescaldo da interrupção e da proibição das Conferências, consideradas subversivas pelo Governo, Antero vive a sua fase política mais intensa, fundando, com José Fontana, a I Internacional Operária em Portugal e também o jornal O Pensamento Social. Por esta altura, publica as primaveras Românticas e as Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa. A partir de 1873, manifestam-se-lhe os primeiros sintomas de uma grave doença nervosa, que as mortes próximas da mãe e do pai acentuam, que o leva a consultar em Paris o famoso neurologista Charcot e a submeter-se, entre 1877 e 1878, a tratamentos de hidroterapia. Em 1875, publica uma segunda edição das Odes Modernas, atenuando-lhes o cunho revolucionário. Em 1880, adota duas órfãs, filhas do amigo e antigo colega de Coimbra Germano Meireles. Nessa altura, devido à doença, isola-se em Vila do Conde, continuando a escrever sonetos e ensaios filosóficos. Em 1886, publica os Sonetos Completos e o ensaio A Filosofia da Natureza dos Naturalistas. Em 1887, redige a célebre carta autobiográfica a Wilhelm Storck, seu tradutor alemão. Em 1890, publica o estudo filosófico Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX. No mesmo ano, em virtude do Ultimato inglês, regressa temporariamente à atividade pública, aceitando a presidência da efémera "Liga Patriótica do Norte". Em 1891, suicida-se em Ponta Delgada.
Antero de Quental: In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012.
Na mão de Deus
Na mão de Deus, na sua mão direita,
descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da ilusão
desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais com que se enfeita
a ignorância infantil, despojo vão,
depus do Ideal e da paixão
a forma transitória e imperfeta.
Como criança em lôbrega jornada
que a mãe leva ao colo agasalhada
e atravessa sorrindo vagamente
selvas, mares, areias do deserto,
dorme o teu sono, coração liberto,
dorme na mão de Deus eternamente.
Antero de Quental
O Palácio da Ventura
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d’ouro com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!
Antero de Quental
Sonho Oriental
Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...
O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...
E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
Antero de Quental
O sonho do Rei Tule
Era uma vez um bom rei
Em Tule, essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de oiro de lei.
-
Era um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.
-
Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.
-
Chegada a hora da morte
Põs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.
-
Deixava um rico tesoiro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de oiro.
-
No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.
-
Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.
Então, vazando-a de um trago,
E com entranhada mágoa,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.
-
Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!
-
Antero de Quental
Nocturno
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento -
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem;
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre do Ideal que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém.
Antero de Quental,
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Mes vacances de Pâques
Mes vacances de Pâques ont été bonnes. J'ai passé beaucoup de temps chez moi et chez ma tante et je suis allée à Santo Tirso un jour pour danser avec un groupe de mon école. Mais ce que j'ai aimé le plus a été la visite d'étude à Santiago de Compostela. Le 30 mars, nous sommes allés aux musées des Sciences et de l'Homme, situées à Corunha, où nous nous sommes logés, à l'hôtel Sol. Nous sommes aussi allés à la plage et nous y sommes restés jusqu'à 23 heures... Très bon! Le 31 mars, nous sommes allés à Santiago de Compostela et Baiona. J'ai bien aimé, cette visite d'étude!
J'ai passé les Pâques chez ma grand-mère avec ma famille. Ça a été très amusant!
Ana Machado nº3 11ºE2
segunda-feira, 5 de março de 2012
O Poeta do mês
JOÃO DE DEUS
JOÃO DE DEUS DE NOGUEIRA RAMOS nasceu em São Bartolomeu de Messines a 8 de março de 1830 e faleceu em Lisboa a 11 de janeiro de 1896.
Filho de um pequeno comerciante algarvio, foi para Coimbra em 1849 matricular-se em Direito, tendo levado dez anos a concluir a sua formatura, pelo que teve ocasião de fazer amizade com Antero de Quental, que, em 1860, já nele saudava «o poeta mais original do seu tempo». Boémio, generoso, irónico, irreverente, improvisando poemas que acompanhava à guitarra, a sua personalidade fascinou sucessivas gerações de estudantes. Colaborou numa série de jornais (Estreia Literária, Ateneu, Prelúdios Literários, Académico, Fósforo, etc.) e, em 1869, um grupo de amigos conseguiu elegê-lo deputado por Silves, tendo-se mudado de vez para Lisboa. Mas, a política pouco o interessava e esses primeiros anos em Lisboa foram difíceis, tendo tido de recorrer a vários expedientes para sobreviver. Datam dessa época as suas traduções de comédias de Méry, compondo também, por encomenda, poemas para festas de caridade.
Embora pertencendo à 2.ª geração romântica de um João de Lemos e de um Soares dos Passos, João de Deus é um poeta isolado e dissidente dos ideais estéticos de O Novo Trovador. Num artigo que publicou em O Bejense, em 1863 (escrito contra certas afirmações de Castilho que introduziam o D. Jaime, de Tomás Ribeiro), fazia a primeira condenação pública da escola ultra-romântica, defendendo um lirismo «purificado» ligado à tradição dos cancioneiros galego portugueses, às cantigas populares do romanceiro e a certos aspectos de Camões lírico.
Escrevendo «com uma mão no coração», não se encontra na sua poesia nada de tétrico ou de lamuriento. Servindo-se de um vocabulário restrito, em que aparecem repetidamente palavras como lua, ave, nuvem, perfume, lágrima, exprime os sentimentos de um modo espontâneo e direto, quase infantil, numa linguagem muito próxima da oralidade.
É um poeta do amor adoração e a sua poesia não é mais do que a sublimação dos impulsos eróticos. Não canta cada mulher que cruza a sua vida mas a Mulher, numa ascese que, superando a materialidade, aspira a «tudo o que é belo e estável», sem nunca se desprender completamente do seu apoio concreto e sensual.
Formalmente recupera o soneto desprezado pelos românticos e cultiva quase todas as formas poéticas, desde a ode à elegia, dando uma nova vida às formas tradicionais de redondilha maior ou menor, no que, de certo modo, preparou o advento da poesia moderna.
A sua bondade inata fá-lo sensível aos problemas da educação e, na esteira de Castilho, publicou, em 1876, a sua famosa Cartilha Maternal, método racional e sensível de ensinar a ler, que foi para muitas gerações o método oficial de leitura nas escolas.
Homenageado pela nação inteira em 1895, os seus funerais, em 1896, tiveram a dimensão de acontecimento nacional.
Obras principais: Flores do Campo, 1868 (2.ª ed., 1876); Ramo de Flores, 1869; Folhas Soltas, 1876; Cartilha Maternal, 1876; Despedidas de Verão, 1880; Campo de Flores (organizado por Teófilo Braga), 1893; Prosas (sob os cuidados de Teófilo Braga), 1898.
Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
O SEU NOME
Ela não sabe a luz suave e pura
Que derrama numa alma acostumada
A não ver nunca a luz da madrugada
Vir raiando, senão com amargura!
Não sabe a avidez com que a procura
Ver esta vista, de chorar cansada,
A ela... única nuvem prateada,
única estrela desta noite escura!
E mil anos que leve a Providência
A dar-me este degredo por cumprido,
Por acabada já tão longa ausência,
Ainda nesse instante apetecido
Será o meu pensamento essa existência...
E o seu nome, o meu último gemido.
João de Deus
In Odes e Canções
Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A José A. S. R. de Castro
Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que nesta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do túmulo descendo.
Em se ela anuveando, em a não vendo,
Já se me a luz de tudo anuveava
Despontava ela apenas, despontava
Logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gémea da minha, e ingénua e pura
Como os anjos do céu (se o não sonharam...)
Quis mostrar-me que o bem pouco dura!
Não sei se me voou, se ma levaram;
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que ainda em vida não choraram...
… … … … … … … … … … … … … … …
De dia a estrela de alva empalidece
De dia a estrela de alva empalidece;
E a luz do dia eterno te há ferido!
Em teu lânguido olhar adormecido
Nunca me um dia amanhecesse!
Foste a concha da praia! A flor parece
Mais ditosa que tu! Quem te há partido,
Meu cálix de cristal onde hei bebido
Os néctares do céu... se um céu houvesse!
Fonte pura das lágrimas que choro,
Quem tão menina e moça desmanchado
Te há pelas nuvens os cabelos de oiro;
Some-te, vela de baixel quebrado!
Some-te, voa, apaga-te, meteoro!
É só mais neste mundo um desgraçado!
… … … … … … … … … … … … … … …
A VIDA
A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Onda que o vento nos mares.
Uma após outra lançou,
A vida — pena caída
Da asa de ave ferida —
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou!
… … … … … … … … … … … … … … …
Ah! quando numa vista o mundo abranjo
Ah! quando numa vista o mundo abranjo.
Estendo os braços e. palpando o mundo,
O céu, a terra e o mar vejo a meus pés,
Buscando em vão a imagem do meu anjo.
Soletro à frouxa luz de um moribundo
Em tudo só: Talvez!...
Talvez! — é hoje a Bíblia, o livro aberto
Que eu só ponho ante mim nas rochas quando
Vou pelo mundo ver se a posso ver;
E onde, como a palmeira do deserto,
Apenas vejo aos pés inquieta ondeando
A sombra do meu ser!
Meu ser... voou na asa da águia negra
Que, levando-a, só não levou comigo
Desta alma aquele amor!
E quando a luz do sol o mundo alegra,
Cristalina nocturna a sós comigo
Abraço a minha dor!
Dor inútil! Se a flor que ao céu envia
Seus bálsamos se esfolha, e tu no espaço
Achas depois seus átomos subtis,
Ainda hás-de ouvir a voz que ouviste um dia...
Como a sua Leonor ainda ouve o Tasso...
Dante, a sua Beatriz!
— Nunca! responde a folha que o outono,
Da haste que a sustinha a mão abrindo,
Ao vento confiou;
— Nunca! responde a campa onde do sonho
E quem talvez sonhava um sonho lindo.
Um dia despertou!
Nunca! responde o ai que o lábio vibra;
— Nunca! responde a rosa que na face
Um dia emurcheceu:
E a onda que um momento se equilibra
enquanto diz às mais: Deixai que eu passe!
E passou e... morreu!
João de Deus In Elegias
INDIFERENÇA
Ora dize-me a verdade:
Tu já sentiste por mim
Uma sombra de saudade,
De amor. de ciúme; enfim,
Uma impressão que indicasse
Haver em teu coração
Fibra, corda que vibrasse,
A minha recordação?
Parece, mas o contrário;
Sim o que devo supor
É deserto e solitário
O teu coração de amor!
Não digo por outro; invejo
Talvez a sorte de alguém...
Mas o que eu sei, o que eu vejo,
É que me não queres bem!
João de Deus
In Odes e Canções
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